quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Conversa com meu Anjo

    
                                   Fra Angélico (1395 - 1455 ) - pintor da fase inicial do Renascimento.


Conversa com meu Anjo



Para começar, sei como você é, meu Anjo.

Um Ser de Luz, de beleza indescritível, presença protetora e amigável; ri e chora comigo, sabe se estou triste ou alegre.

E me escuta, por isso falo com você tão natural e facilmente.

Conheço-o desde que nasci e você me conhece desde muito antes. Ensinou-me a lidar com os seus mistérios, porque sem eles, Anjo nenhum existiria.

É quando estou no mais alto ou no mais baixo das minhas dimensões humanas que mais preciso de sua proteção, de seus braços de Anjo abertos para mim, de suas mãos seguras e firmes a me guiar. No mais fundo dos abismos ou no mais alto dos céus da minha condição humana, na subida e na descida das emoções e afetos que mais fico vulnerável e necessito de sua Presença.  Não sei andar sozinha, preciso muito de você, meu Guia.

Suplico que seu olhar divino e iluminado me olhe para que os olhares humanos sejam compreendidos e deles eu não fuja, pois também meus olhares são demasiadamente humanos.

Acompanhe-me em minha jornada terrena, seja ela longa ou breve. E depois, ah,  depois, quem sabe?

É sempre no agora que preciso de você, e aqui.

Espero por você, meu Anjo, agora, agorinha mesmo...

Amém!

"Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam." (Clarice Lispector)
 
 




quinta-feira, 23 de março de 2017

Sonhos estelares

                                              

                                                                                                   


                                         
                                                            Bordado em cetim e pérolas sobre fundo
                                                            de algodão cru.
                                                            Moldura em renda de seda.
                                                           - Regina Gaiotto

                                                          

                                         Caiu do firmamento uma estrela.
                                         Num piscar de olhos
                                         chocou-se com o oceano,
                                         foi parar junto aos que habitam
                                         as águas frias de sal.

                                        Um cavalo-marinho
                                        engravidou-se de estelares desejos
                                        e num piscar de cores
                                        deu à estrela presentes
                                        lilases, laranjas, turquesas.

                                       No castelo de corais,
                                        a maga das profundezas
                                        fez com que ele parisse
                                       a mais bela estrela-do-mar.
                              

sábado, 12 de novembro de 2016

Tempo pretérito

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Foto: Casarão da Mamma e sobrado conjugado
         Pintura em porcelana  por Rosa Maria Gaiotto Fonseca
         Criação original; Dina Gayotto Carneiro da Cunha



Escrevo do pretérito, fugas do tempo presente, portos de onde as embarcações se lançam ao futuro e as bagagens se extraviam em cada um deles. Tudo parece vir de tempos idos, das mochilas que lancei aos mares por onde viajei com a vida.      
Uma casa de varanda e um sobrado a ela conjugado abriram suas portas e janelas para a poesia da lembrança;  de lá,  a argila da saudade moldou em mim a permanência de tudo o que a ilusão parece modificar.
Mas não, essa persona que é do passado, vive flexionada à casa, ao sobrado, à Mamma, minha avó paterna e aos inquietos  meninos e meninas, netos  que ela acolhia em seu imenso quintal.
Da fresca varanda que ficava a alguns degraus das brincadeiras,  com a agudeza do seu olhar de águia,  perspicaz e penetrante, a nona nos vigiava.  Quantos éramos? Muitos! Tantos, que ela não mais conseguia assossegar.
Durante os meses de julho, dezembro e janeiro, o quintal ficava ainda mais animado com os primos, netos e bisnetos que vinham de longe.
O olhar da nossa avó oscilava entre ternura e austeridade;  haja energia e foco para conter  o desassossego de tantas crianças! E ela foi mestra no quesito.  Do seu rosto emoldurado por caprichosos coques presos em preciosos pentes italianos,  surgiam expressões de bondade e braveza. Mamma sabia assossegar crianças apenas com o olhar.
Da sacada do sobrado, tios carinhosos nos advertiam
dos perigos: subir em altas árvores, boiar nas enxurradas
comer dos frutos ainda verdes, caçar aranhas e perder-se em montes de areia, travessuras naturais que,
se comparadas às dos  meninos de agora, dá uma pena doída por não poderem desfrutar com liberdade das venturas que a natureza oferece. Tudo tão mais perigoso, nos dias atuais do que saltar dos altos galhos dos pés de jambolão que iam além do quintal da Mamma.
Tão doce era o canto que de longe se ouvia quando o vento batia nas frondosas copas das árvores do quintal,  que a vida juntou em nós  sua equação, teorema e poesia, como fez Casimiro de Abreu com seu menino de oito anos, em seus versos mais eloquentes sobre pretéritos que os anos não trazem mais.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Um Ford inglês Prefect - ano 1950



       


 
Na rua Dr. Campos, número 6, em Cerquilho, ficava nossa casa, grande e modesta, de paredes altas e janelas e portas abertas para a rua e o quintal. Cresci com a ventura dos quintais e a alegria das ruas. Crianças espertas, éramos divertidos camaleões entre as ramagens das árvores, a poeira e a lama das ruas e a fumaça dos trens.
Das janelas para os fundos víamos crescer e amadurecer frutos de delícia incomparável, a ouvir os sons bizarros dos animais e bichos que viviam em nossos pomares e se misturavam  às vozes da meninada.
As janelas para a rua abriam-nos para o mundo. E o mundo vastíssimo de chão batido era circo, teatro, quadra esportiva, escola. Jogos de peteca, amarelinhas, queimadas, fogueiras, rodas de ciranda, malabarismos e mágicas faziam a nossa festa. E não faltavam contorcionismos de todo tipo.
Podíamos contar os veículos nas poucas ruas e isto também se tornava brincadeira.  Eram o táxi do Tio Tidinho, os ônibus do Tio Tico Rosa da  Silva, carros, caminhonetes e caminhões FNM e da Ford que contávamos nos dedos. Alguns carros de Tietê e cidades vizinhas aumentavam a frota e a nossa contagem se avantajava.
Havia um carro que chamava minha atenção desde tenra idade por ser diferente e porque suas idas e vindas tinham propósitos especiais. Era o Ford inglês, modelo Prefect, ano 1950 de cor bege do médico Dr. Vinício Gagliardi. Se quiser, veja um carro igualzinho ao dele no canal https://youtu.be/ikcaNHxGIh8.  
Único médico da cidade, Dr. Vinício, esse notável homem de  sorriso jovial e simpático, atendia no Posto de Saúde e em casas de ricos e pobres com a mesma atenção. Seus cuidados médicos transcendiam a medicina da época e curou muita gente com graves enfermidades. Salvou-me de um choque anafilático e a uma de minhas irmãs com sério problema pulmonar. Anjo salvador, não abandonava a casa do paciente enquanto não sentisse melhoras e muitas foram as noites, chovesse ou não,  em que ele saiu com seu Prefect em estradas de terra, cafundós de sítios e fazendas com a responsabilidade de assistir a partos difíceis e a doentes em fase terminal. Levava a cura e trazia a vida em quartos escuros, mal iluminados com fracas luzes de velas e lamparinas. Quando a morte era inevitável, dava para notar sua enorme frustração.
Não à toa, essa é uma das lembranças mais marcantes nas ruas da minha infância, o Ford Prefect de cor bege indo e vindo pela cidade e estradas rurais e o seu dinâmico condutor, médico sem fronteiras, sempre de plantão, Pronto Atendimento daqueles dias em que não havia hospital em nossa pequenina Cerquilho. Somente em casos muito graves é que o Dr. Vinício encaminhava seus pacientes à Santa Casa de Tietê ou a cidades maiores.
Essa incrível história de um médico, seus serviços humanitários  e seu Ford Prefect ano 1950 que já publiquei certa vez e volto a ela, pois a personagem em foco merece nossas homenagens inúmeras vezes, é, sem dúvida, a história de uma grande alma. 

Regina Gaiotto - Publicado na Revista Vitrini - Tietê/SP - Set/2015

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O mar e as emoções



                    

Foi no último verão. Em férias com a família em uma bela praia, ela se surpreendeu com os sentimentos que lhe afloraram diante do mar.
O verde-azul das águas que se abraçavam ao vasto horizonte, o ímpeto e a força das ondas nas rochas, ilhas que se perdiam ao longe, gaivotas em círculos no céu alaranjado do poente, crianças brincando na areia,  barquinhos na tarde e o frescor da brisa-marinha estremeciam-lhe o corpo e as arrebentações dos sentidos   sacudiam-lhe a alma.  Passava longo tempo a contemplar a beleza do entardecer e o ir e vir das ondas a eternizar as imagens do Pôr do Sol. Pensava nos códigos que a natureza formula e obedece para produzir efeitos tão belos, o quanto transgrediu em generosidade para adaptar-se, em  bilhões de anos,  e  produzir o espetáculo dos efeitos de suas inesperadas concepções. Pensava nas mudanças bruscas e drásticas ocasionadas pelos movimentos das forças naturais ou por interferência do homem. Sua alegria tornava-se como a tarde, lânguida e silenciosa, agonizante.
Sentia-se como gaivota que foge do bando e voa para  ilhas longínquas, distantes de toda civilização - como sabem os pássaros migrar e abrigar-se nelas, à procura de alimento e proteção?  E as embarcações com velas içadas,  para onde vão, sem se despedir? Haveria nas ilhas o sentimento do mundo de que falava o poeta Carlos Drummond de Andrade?
Os camaradas não disseram que havia uma guerra/ e era necessário trazer fogo e alimento. / Sinto-me disperso, /anterior a fronteiras, /humildemente vos peço/ que me perdoeis.”
Talvez as ilhas nada saibam das tragédias humanas e dos desastres na natureza. E nós, isolados no universo, dispersos, sem o fogo e o alimento da autopreservação, pediremos perdão?
Aquelas férias foram marcantes para a mulher. Fez retornos a tempos vividos e não vividos, inventou novas  rotas para o caminho do coração e ganhou presentes do mar.
Numa dessas tardes, viu pequenos barcos de  pescadores surgirem entre as águas e no mesmo instante ouviu os gritos eufóricos do netinho que, em companhia do pai, pulava altas ondas.  Sentou-se na areia e vibrou com as brincadeiras do menino e a alegria dos pescadores que voltavam do mar com seus peixes.
A intensidade do momento trouxe luz ao seu pensamento e mais uma vez teve certeza de que a vida é assim mesmo, feita de altos e baixos, como ondas que vão e vêm. Sentiu a dor da saudade de tempos idos e que a vida agora fazia suas preciosas acomodações.
Sentimo-nos, tantas vezes, isolados como pássaros em  ilhas e perdemos o sentimento do mundo; mergulhamos em águas profundas ou deslizamos como barcos sem rumo.
Talvez possamos aprender com a natureza que das fragilidades pode vir a força que nos faz avançar até o continente e, em terra firme,  acolher as tempestuosas  precipitações dos    acontecimentos. Possamos, quem sabe,  ser como as encostas rochosas das montanhas onde as ondas batem com desmedida força para em seguida se desmancharem em espuma, como brancas quimeras.

Regina Gaiotto - Revista Vitrini - Julho/2015